Editorial. David Bowie foi o que quis ser, e ninguém se importou com isso

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Há tempos venho pensando em como seria o primeiro editorial do Vá de Cultura. Com a notícia que recebi na manhã de hoje, ao ler um post da página Cultura Estadão, no Facebook, sobre a morte de David Bowie, enquanto pesquisava as novidades culturais do dia para fechar a pauta do Vá de Cultura, recordei-me de um pensamento que tinha comigo há tempos. Pensamento que envolve um pouco de reflexão sobre coerência, talvez.

Nossa sociedade, inegável e, quem sabe, inconscientemente, traz consigo arquétipos da criação conservadora dos tempos passados. E me parece tão estranho usar isso para tentar justificar alguns pensamentos segregadores que temos, seja em relação à cor da pele, à preferência sexual ou simplesmente à “forma de levar a vida” que as pessoas têm. E a coerência, que citei acima, pega justamente neste ponto.

David Bowie se declarou Gay em 1972, numa entrevista ao jornal Melody Marker. Sua personalidade multifacetada à partir de então lhe rendeu o apelido de Camaleão. Um andrógeno, um artista. Aí então me veio à mente que vários outros ícones e ídolos da música, do cinema, do teatro, e outros meios, são gays e, pelo respeito que conseguiram por meio de suas obras, não são julgados com o pré-conceito do cotidiano. Em outras palavras, para o fã, o mesmo fã que se diz conservador dos bons costumes, a preferência sexual de seus ídolos pouco importa.

Freddie Mercury, David Bowie, George Michael, Ney Matogrosso, Renato Russo, Cazuza, Daniela Mercury, Ricky Martin, e outros à perder de vista, são ícones da cultura mundial. Todo mundo ao menos uma vez na vida ouviu suas canções e muitos se identificam com elas. Gostam, admiram e respeitam. Peguemos ainda as referências dos músicos negros, como Ray Charles, Cartola, Luiz Gonzaga, Tim Maia, Milton Nascimento, James Brown, Bob Marley, Jimi Hendrix… Outra infinidade de nomes.

Talvez a música nos ensine que pouco importa a cor da pele, pouco importa a preferência sexual. Afinal, cada uma dessas pessoas fez o mundo ser como é, e todos nós gostamos de como ele é. Imagine um mundo sem Under Pressure, sem Love Of My Life, sem Tempo Perdido. Chatinho não?

Ah, sim! A coerência! Ou a falta dela. Está no fato de usarmos dois pesos, e duas medidas. Porque a impressão que dá, ao ver o quanto adoramos nossos ídolos gays e negros, e o quanto tratamos mal nosso vizinho, nosso colega de escola, nossos familiares, é de que não existe um motivo real para segregar. É só um conceito pré formulado, sobre uma coisa que não existe. É quase como uma birra, ou uma desculpa que se arruma para julgar o outro.

David Bowie foi tudo o que quis ser, e ninguém se importou com isso. Imagina que maravilhoso será o dia em que cada um puder ser o que quiser, e ninguém se importar com isso! Talvez seja só uma questão de ajuste de coerência.

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