Weber Carvalho e Tico Estrelo discutem a arte popular e o produto cultural

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Se você chegou a este artigo provavelmente não foi por acaso. Por bem, não seria de bom tom passar em branco sem dizer que esta é uma das mais complexas discussões dentre as que já circularam pelas páginas do Vá de Cultura. É sobre arte, e sobre até onde podemos entender a arte como manifestação cultural e onde a separamos do produto cultural. Para nos ajudar na compreensão deste dilema, Weber Carvalho, dramaturgo e pensador, expôs sua visão em linhas de texto e enriqueceu o artigo batendo um papo com o pernambucano Tico Estrelo um dos líderes do grupo Seu Estrelo e O Fuá do Terreiro.

Toda manifestação popular é um teatro, mas nem todo teatro é uma manifestação popular. Por Weber Carvalho

Talvez nessa frase a contradição seja a forma que podemos usar pra explicar essas ideias. São Paulo é referência e quase sempre é lembrado pelo grande número de Grupos de Teatro de rua, ou na rua, e quase sempre a dramaturgia escolhida é da manifestação popular nordestina. Talvez isso explique também o número assombroso de grupos de maracatu ou, quem sabe, porque as referências que temos são os artistas dessas região.

Dessa forma, o cenário, as músicas e os figurinos acabam por remontar esse Brasil nordestino no estado de São Paulo, e não que isso seja algo ruim, pelo contrário, só mostra o quanto são importantes estas manifestações e o quanto elas, por si mesmas, tem todos os elementos necessários para uma boa peça de teatro, que foi influencia pelas manifestações desse povo, sobre o qual Dias Gomes, Ariano Suassuna e Chico de Assis escreveram textos fascinantes e, nas ruas, ganharam ainda mais frescor.

O teatro brasileiro é muito grato à cultura do norte e nordeste. Foi visível na peça o Amor é a Margem do Rio, do grupo de teatro de Brasília, Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, que as manifestações populares são uma possibilidade de um teatro sagrado e profano e como isso pode ser enriquecedor em sua dramaturgia.

O Grupo apresenta sua história simples, mas que ganha força com os encantamentos que os personagens exercem no público, retirados do fundo do mar, os personagens são bem construídos. É uma dramaturgia que obedece a proposta do Cavalo Marinho e do Maracatu Rural.

A musicalidade do grupo é algo delicado e em alguns momentos os atores penam para manter o ritmo, sendo esse um detalhe de reflexão sobre a Dramaturgia, já que em por alguns instantes parece que os músicos e os atores são duas coisas diferentes. Talvez um Grupo de teatro que se utiliza da manifestação popular como forma, ou um grupo de manifestação popular que utiliza o teatro como conteúdo, algumas dessas duvidas resolvi tirar com o Pernambucano Tico Estrelo um dos líderes do grupo Seu Estrelo e O Fuá do Terreiro.

O grupo não é de Brasília, mas tem como principal referencia as manifestações populares do sertão, como isso fica quando desembarca no cerrado?

A gente inventou uma própria pulsada, que é o que tu viu! Chamamos de samba pisado, pra da um pulsa para nossa brincadeira. Uma mistura de alguns ritmos populares. Inventamos um mito aqui pra cidade, pra Brasília, e uma brincadeira pra ela. Como tudo era novo, o mito, as figuras e tal, sentimos a necessidade de um som próprio também pro pulsar dessas novas figuras. Agora, dias 27 a 29 de novembro, faremos nosso festival aqui em Brasília.

E como é utilizar essas manifestações no formato de peça teatral? Como fazer isso sem deixar sua origem, sagrada e profana?

Essa é uma grande questão, os espaços, mas acho que sempre vale à pena botar pra jogo, pra que o grupo sinta até onde pode ir, sem perder o fundamento. Vivemos algumas questões aqui, pois temos também nossas ligações com o sagrado da brincadeira. Cada figura pra gente é muita sagrada, cada uma tem sua musica, sua dança, sua comida, seu figurino. Sim, temos uma ligação. A gente nunca tinha se apresentado de dia, foi uma novidade pra gente e para as figuras. Chamamos nossa brincadeira de teatro de terreiro. Aos poucos vamos sentindo com as figuras, e onde elas chegam há coisas que já não fazemos mais com a roda, por isso criamos a sambada que é uma apresentação só com o batuque. Brincamos com ela quando sentimos que as figuras não vão chegar. São musicas de louvação ao cerrado e às figuras, mas não são musicas de chamamento, são de homenagem. As de chamamento deixamos para a roda.

E como alinhar essas forças? eles se chocam em alguns momentos?

Não exatamente. São duas formas de brincar forte, cada qual com a sua força. Elas se unem. Trazer as figuras é sempre um processo mais intenso e quando podemos medir isso com a música, tem toda uma intensidade também, mas trazer as figuras é sempre um pouco mais complicado por elas próprias. Caminhamos buscando o tempo todo esse sagrado, experimentando espaços, mas sempre atrás dele. Temos algumas entidades que nos acompanham e sempre estamos juntos na descoberta desses caminhos.

E como um pernambucano resolve escrever um mito para cidade de Brasilia?

Eu escrevi quando conheci o serrado e hoje ele vem ganhando espaço aqui na cidade. Temos um festival em sua homenagem, que junta 20.000 pessoas. O mito hoje é tema do vestibular da UNB, a brincadeira já saiu um pouco do grupo e ocupa alguns lugares da cidade. O mito é a possibilidade de comungar com novas pessoas. O sagrado também está nesses encontros, na brincadeira e no festejar.

E você caro leitor? Qual é o limite entre a arte popular e a arte produzida para a indústria cultural? O que é manifestação de uma cultura e o que é produto para o mercado? Deixe sua opinião nos comentários e ajude-nos a enriquecer este debate.

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