Vida no Kepler 452b! Biólogo fala sobre as chances de existência

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Após o anúncio da descoberta de um novo planeta semelhante à Terra, conhecido como a segunda terra, muitas dúvidas surgiram a respeito da real possibilidade de existência de vida no Kepler 452b. Buscando sanar as principais dúvidas dos nossos leitores a respeito do assunto, o Vá de Cultura ouviu o Biólogo e Mestre em Botânica pela Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, Sérgio Morbiolo, que destacou algumas curiosidades sobre as possibilidades reais de existência de vida no planeta descoberto pela Agencia Espacial Americana.

De acordo com as características divulgadas pela NASA, qual seria a real possibilidade da existência de vida no Kepler 452b?

Sérgio Morbiolo – Em primeiro lugar, precisamos definir vida. Toda a vida na Terra é baseada em carbono, com código genético baseado em DNA com estrutura bastante homogênea e formada por células ou estruturas semelhantes. Considera-se que a vida tenha surgido uma vez só na Terra e evoluído para suas diversas formas a partir de então. Pode-se dizer que toda a vida da Terra é do mesmo tipo. Se a vida surgir independentemente em outros planetas além do nosso essa estrutura básica pode ser diferente, baseado em outros elementos ou em outras estruturas moleculares, a ponto de não conseguirmos reconhecê-la como tal em princípio.
O advento da vida em si não é uma consequência da história de um planeta, e isso deve ficar bem claro. Uma série de eventos bastante específicos e razoavelmente aleatórios devem ter ocorrido na Terra para que moléculas se arranjassem de forma crescentemente complexa e minimamente estável. Portanto, mesmo que as condições e mesmo as moléculas iniciais estejam presentes pelo tempo necessário, a origem de uma nova vida não é uma consequência garantida.

Em segundo lugar, temos que colocar a semelhança ambiental entre a Terra e o planeta. O conhecimento sobre o Kepler 452b ainda é bem incipiente, sabem-se apenas alguns dados básicos como seu diâmetro e sua distância orbital. As coincidências que levaram os cientistas a dizerem que o planeta é o mais semelhante à Terra já encontrado é o fato de estar orbitando uma estrela de mesma grandeza e mesmo tipo que o Sol, mas aparentemente as diferenças terminam aí: a Kepler 452, a estrela ao redor da qual o planeta orbita, é um pouco mais velho que o sol e, portanto, mais quente. O planeta é 1,6 vezes maior que a Terra em diâmetro, o que faz sua gravidade ser aproximadamente o dobro da nossa, isso levando em conta o fato de ele ser rochoso e não gasoso (ainda não se tem 100% de certeza sobre isso). Esses dois fatos em conjunto podem levar à consequência de a atmosfera, se presente, ser muito mais densa que a nossa e a temperatura muito mais alta. Essas características podem desencadear um efeito estufa descontrolado semelhante ao que o ocorreu em Vênus, que é quente por esse motivo e não pela maior proximidade com o sol.

Os planetas descobertos são classificados por semelhança com a Terra em termos de características físicas, como possibilidade de existência de atmosfera, órbita estável em zona habitável, estrutura rochosa etc. No caso de Kepler 452b esses fatores iniciais são bastante semelhantes à Terra, mas o fato de poder ter uma atmosfera não significa que essa atmosfera possa suportar a vida, pelo menos não a que conhecemos.

Levando em conta os fatores expostos, podemos dizer que é muito pouco provável que o planeta possa apresentar vida estruturalmente semelhante à nossa, baseada em carbono, com DNA e estruturada em células. Porém, como não sabemos nada sobre outros tipos de vida, não podemos falar nada sobre a existência de algum formato de vida desconhecido.

Neste caso, caso haja vida, é improvável que tenha evoluído num ciclo semelhante ao que conhecemos a ponto de ser inteligente, portadora de consciência ou ao menos instintos tal como estamos acostumados a observar?

Sérgio Morbiolo – A evolução é um processo imprevisível. Basicamente, para que exista evolução, três condições precisam ser satisfeitas: 1) mutações, erros de reprodução do código genético; 2) seleção natural, com a eliminação dos organismos menos adaptados ao ambiente pelo simples fato de eles não conseguirem sobreviver ou ao menos não conseguirem se reproduzir tanto quanto os demais; e 3) hereditariedade, a capacidade de o organismo mais adaptado passar as características de maior sucesso para a próxima geração. Assim, podemos dizer que a evolução é fortemente baseada nas condições ambientais durante a vida do organismo e na natureza das mutações. Ou como os biólogos costumam dizer, “somos um conjunto de erros que deram certo”.

Mesmo em ambientes semelhantes, a evolução pode seguir caminhos distintos de acordo com o histórico das mutações. Em princípio, animais e plantas surgiram de ancestrais comuns e em ambientes semelhantes, mas evoluíram características totalmente diferentes: enquanto animais baseiam-se na mobilidade para procurar recursos e sentidos que permitem reações rápidas, as plantas calcam sua estratégia na resistência, resiliência e capacidade de reconstrução, além de produzirem o próprio alimento a partir de moléculas inorgânicas.

A existência de níveis crescentemente complexos de reações ao ambiente (reações fisiológicas, instinto, consciência, inteligência) é viável apenas no caso de ser uma consequência da evolução e uma arma importante contra a eliminação por seleção natural. Então, mesmo se considerarmos que o planeta tem condições semelhantes às da Terra e que a vida tenha lá nos mesmos moldes daqui, é muito pouco provável que o processo tome rumos semelhantes. Se procurarmos entre os animais da Terra nem todos têm essas características: as águas vivas, por exemplo, são um grupo de extremo sucesso, tendo sobrevivido por 600 milhões de anos sem inteligência nenhuma sendo capazes de reagir apenas a estímulos diretos. Pode-se dizer que a dita inteligência é apenas mais uma característica como qualquer outra, viável apenas se for uma consequência direta da evolução e se for considerada benéfica a ponto de desequilibrar favoravelmente a seleção natural. Em alguns ambientes a produção de um cérebro complexo é custosa demais energeticamente falando e vale mais a pena ser “descerebrado” e se manter vivo. E há quem diga que inteligência demais é extremamente maléfica para as espécies.

Levando em conta que o planeta está na chamada Zona Habitável por mais de 6 bilhões da anos, ou seja, tempo maior do que a terra, as chances de haver vida inteligente num patamar de evolução superior ao nosso é cogitável?

Sérgio Morbiolo – Uma questão que surge sempre é o próprio conceito da palavra evolução: em termos de ciência, evolução não significa melhoria ou aumento da complexidade, mas adaptação. Um organismo pode ser bem simples e aparentemente “primitivo” e sobreviver em ambientes onde outro aparentemente mais complexo não sobreviveria (veja as bactérias extremófilas como exemplo). Então, não faz sentido dizermos que um organismo é mais evoluído que outro, já que não existe um modelo, um objetivo no processo evolutivo. Não podemos dizer que somos o topo da evolução de forma alguma, somos simplesmente mais uma espécie lutando para sobreviver, não somos melhores que ninguém em termos ecológicos. A nossa inteligência não é nem um pouco impressionante para outras espécies, que se baseiam em outras estratégias para a sobrevivência. A nossa aparente evolução social e cultural (que não tem relação com evolução biológica) é baseada na acumulação de conhecimento através do tempo, característica não observável nesse nível de complexidade em outras espécies. Então, não podemos dizer que somos “melhores” ou “mais evoluídos” que os humanos de 5000 anos atrás em termos biológicos, apenas que temos mais conhecimento acumulado que eles e consequentemente mais tecnologia. Aliás, se considerarmos exclusivamente a genética, é provável que tenhamos muito mais genes problemáticos que eles, já que não estamos mais sujeitos à eliminação direta por seleção natural tão intensamente quanto antes: defeitos genéticos eram eliminados ou tinham sucesso reduzido antigamente, enquanto que hoje esses genes podem passar de geração para geração que podemos neutralizar ou reduzir seus efeitos por meio da ciência.

Assim, respondendo à pergunta: é muito pouco provável que uma suposta vida evolua uma inteligência minimamente compatível com a nossa, visto que o processo seria uma sucessão de eventos muito pouco prováveis (condições semelhantes à Terra, surgimento da vida semelhante à nossa, processo evolutivo seguindo o mesmo caminho). E o fato de a Terra ser mais jovem não significa que estejamos atrás de qualquer processo evolutivo, já que sendo a vida um evento tão improvável não podemos dizer que exista um momento certo de surgir. A vida surgiu na Terra há algo entre 1 bilhão e meio e 3 bilhões de anos, mas poderia muito bem estar surgindo hoje ou não surgir nunca. É igualmente possível Kepler 452b ter um coacervado (caldo primordial de onde teoricamente a vida surgiu) hoje ou ter a vida extinta há alguns bilhões de anos.

Caso fosse possível um contato direto com elementos químicos e biológicos presentes neste planeta, poderia haver algum risco de contaminação por bactérias ou vírus desconhecidos?

Sérgio Morbiolo – Como qualquer ser vivo, bactérias patogênicas são sujeitas à seleção natural e se tornaram patogênicas por um processo evolutivo que incluiu a interação com outros organismos. Levemos em conta um modelo bem simples entre uma bactéria e um hospedeiro, com a bactéria sendo obrigatoriamente patogênica (sem a chamada vida livre), enquanto que o hospedeiro sobrevive bem sem o patógeno. Assim, para que a bactéria sobreviva é preciso que a outra espécie esteja sempre disponível e, em termos evolutivos, o hospedeiro é um elemento ambiental para a bactéria. Nenhum patógeno evolui como tal sem contato com um recurso, então é muito pouco provável que, assumindo a existência de bactérias em Kepler 452b, elas sejam patogênicas para nós. As interações patogênicas são complexas demais para evoluírem por si. Os vírus, apesar de não serem considerados seres vivos no sentido mais preciso do termo, seguem raciocínio semelhante.

Interações químicas e físicas, por outro lado, podem ocorrer entre os seres humanos e o ambiente e ser profundamente prejudiciais. O planeta pode ter elementos químicos ou substâncias tóxicas, radiação, temperaturas extremas ou extremamente variadas ou outras características danosas a nós.

Considerando a possibilidade de que, em algum momento de sua existência, o Kepler 452b tenha sido habitat de vida inteligente semelhante à dos humanos, o que explicaria o ‘não esgotamento’ dos recursos naturais, mesmo num planeta mais velho do que a terra?

Sérgio Morbiolo – É muito difícil responder essa pergunta. Não sabemos praticamente nada sobre Kepler 452b, apenas que ele está em uma zona orbital semelhante à da Terra e gira ao redor de uma estrela parecida com o sol, mas é só isso. Não sabemos se tem atmosfera, não sabemos sequer se ele é rochoso ou gasoso. Portanto, não sabemos sobre o estado de seus recursos naturais, não sabemos sequer a natureza desses recursos. Considerando a ausência de vida e uma estrutura rochosa semelhante à terra, o que poderia ter de recursos naturais seriam os minérios e outros recursos minerais brutos, e nada além disso. Não existiriam recursos biológicos como oxigênio molecular livre, petróleo e outros produtos orgânicos semelhantes. Podemos apenas fazer conjecturas, mas precisamos de muitos dados e muito estudo para dar sequer um palpite científico nesse assunto.

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