A São Paulo desmistificada na visão de um migrante, em forma de prosa

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foto noturna de edifícios

A redação do Vá de Cultura trabalha duro, todos os dias, para produzir conteúdo relevante e interessante para os nossos leitores. Mas nada como uma boa parceria para agregar conteúdo mais rico a cada dia, e dentro dessa mentalidade, a de que várias cabeças pensam melhor do que uma, nosso Vá de Cultura iniciou um programa de Guest Post, passando a compartilhar também aqui alguns conteúdos bem interessantes, produzidos por nossos principais parceiros. Hoje a dica é do blog Sobreviva em São Paulo.

Deixe de sobreviver, passe a viver São Paulo

“Lá chove demais. É frio demais. Todo mundo é frio demais. Eles correm o tempo todo. Trabalham demais. Ninguém fala com você. É tudo caro demais. É triste demais. É solitário demais. Não existe amor em SP. Não existe felicidade em SP. Eu já falei que lá chove demais? Lá chove demais, lá.”

Foi debaixo dessa chuva de conselhos de parentes e amigos que eu arrumei minha mala e vim pra São Paulo, deixando Recife pra trás como quem mal aprendeu a engatinhar e já acha que pode correr pela sala sem segurar no sofá.

Mas mesmo aqui, dois meses depois, nos dias de céu azul e vinte e cinco graus, a chuva de avisos continuava, dessa vez em forma de garoa levinha, daquela que cai no meio da Avenida Paulista de vez em quando, só pra molhar os ternos dos moços engravatados.

“É melhor você arranjar um emprego logo. É melhor você se mudar pra perto do emprego logo. É melhor você ficar sempre à esquerda no metrô, pra chegar mais rápido. É melhor você escalar a escada rolante. É melhor você correr na esteira da linha amarela. É melhor você correr.”

Ué. Mas a ideia por trás da invenção da escada rolante não era ficar parado e ela se encarregaria de levar você pra cima? Que mundo é esse que os paulistas estão correndo pra salvar? É pra tentar encher a Cantareira de volta? Ah, não. É só pra trabalhar. Eles correm tanto pra trabalhar e ganhar dinheiro pra não poder gastar, porque vão estar descansando de tanto trabalho. Sagaz.

O problema, as pessoas dizem, é que São Paulo não é um lugar para viver, e sim para sobreviver. Para conhecer, para trabalhar, juntar dinheiro e ir embora. Mas não fique muito tempo aqui porque essa cidade vai engolir você. Isso é o que as pessoas dizem.

anhangabau-sao-paulo-guest-post-sobreviva-em-sao-paulo-afonso-lima-interna-va-de-culturaFoto: Vale do Anhangabaú, São Paulo | Afonso Lima

Eu digo para você engolir São Paulo de volta, saboreando. Parar de tentar sobreviver do jeito que dá, parar de correr tanto pra nada, parar de ter medo dos seus prédios gigantes e dos moços importantes de terno molhados pela chuva empurrando todo mundo no metrô.

Deixe eles passarem na frente. Fique à direita. Espere a escada rolante te levar pra cima e a esteira te levar pra frente. Foi pra isso que elas foram criadas, não o contrário. São só cinco segundos de diferença. Você está mesmo tão atrasado assim?

Olhe ao seu redor. São Paulo tem praças, parques, exposições, peças, feiras de rua e tudo mais que você sempre ouviu falar. Experimente tudo que você puder ao mesmo tempo. Coma pizza sem catchup ou com, você escolhe. Ande pelo centro e observe a arquitetura de lá com calma. Dê uma moedinha ao cara que toca flauta no metrô, sempre que puder. Ele provavelmente é igual a você, com os mesmos sonhos e medos abrigados embaixo desses prédios assustadores.

Mas, mais do que tudo, permita-se conhecer as pessoas e a cidade que respira embaixo dos seus tênis. São Paulo é absurda e interessante demais para que você tente apenas sobreviver nela.

Eu vim pra cá pra viver. E você?

Texto publicado no blog do Sobreviva em São Paulo por: Gabi Machado

Gabi Machado é publicitária recifense que pende mais pro textão que pro slogan. Gosta de gatos, feminismo, livros e de falar de si mesma na terceira pessoa.

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