Alessandro Buzo fala sobre grafite e pixo e critica gestão de Doria


Buscando uma visão mais aprofundada sobre o assunto, nossa reportagem convidou representante icônico da cultura de periferia, Alessandro Buzo


Representante icônico da cultura da periferia, Alessandro Buzo dá sua opinião sobre o grafite e a pichação, e faz críticas à atual administração municipal da capital paulista.

A semana passada foi uma semana bem movimentada com assuntos ligados à pichação e ao grafite. Após as novas medidas ligadas ao Projeto Cidade Linda, iniciativa da Prefeitura de São Paulo, que tem por objetivo revitalizar as áreas degradadas da cidade, os telejornais, jornais impressos e revistas bombardearam os espectadores e leitores com informações e distintos pontos de vista sobre o assunto.

Mas afinal, o que é arte de fato e o que é vandalismo? Existe uma linha que delimita e diferencia um conceito do outro? Grafite é igual à pichação? Essas são perguntas que dificilmente serão respondidas, por quem quer que seja, de forma definitiva e satisfatória. Afinal, dentro de uma sociedade liquida, cada um pensa, age, e vive de um jeito. Cada indivíduo tem um tipo de convívio com um tipo ou outro de cultura.

Projeto Cidade Linda

O Prefeito de São Paulo, João Doria, tem uma visão sobre o assunto. Ele comenta que, acima de tudo, é um servidor público, e que seu objetivo é transformar São Paulo em um local agradável de se frequentar.

Este é um trabalho amplo de manutenção da cidade. Queremos fazer da cidade de São Paulo um local mais agradável para se viver e para se frequentar”, explica o prefeito.

Visão da Periferia

Buscando uma visão mais aprofundada sobre o assunto, e tentando entender a cultura do grafite e da pichação por intermédio de quem vive o dia-a-dia da periferia, nossa reportagem convidou o escritor, cineasta e representante icônico da cultura de periferia, Alessandro Buzo, que concedeu uma entrevista exclusiva ao Vá de Cultura.

Entrevista

Quais diferenças você poderia destacar entre o grafite e a pichação?

Pixo é protesto, grafite é arte.

Você acha que falta um conhecimento mais aprofundado sobre os temas, na sociedade, em geral?

Com certeza. Existe pouco conhecimento sobre o grafite e quase nenhum de pixação, pra grande parte da sociedade, pixador é bandido e pronto, fim de papo.

Qual a sua opinião sobre as duas ações? Você as considera arte, ou vandalismo?

Ambas são arte, mas a pixação também é protesto, na minha humilde opinião. Vandalismo é a falta de um transporte público digno, a falta de médico e remédio no posto, a corrupção do político. Claro que quem tem sua casa pixada vai falar que é vandalismo, mas ai é uma questão pessoal. Prefiro o grafite no meu muro do que ele todo pixado, e acho que a maioria queria mesmo era seu muro pintadinho, bonitinho. Eu, entre as 3 opções, queria o meu grafitado.

Em outros países, não há uma distinção, como aqui no Brasil, entre o grafite e a pichação. Porque você acha que no Brasil, a pichação é tão marginalizada, enquanto o grafite é considerado arte urbana?

A mídia colabora com isso, certamente. Acho que falta no pixo (falo como leigo), um posicionamento mais politizado. Imagina em São Paulo se 50% dos pixos tivessem um cunho de protesto e cobrança pra cima dos políticos e direitos do povo. Talvez na sociedade tivesse mais aceitação. O nome da GANG é uma coisa mais interna, do mundo dos pixadores, agora, um FORA TEMER, um CADÊ O DINHEIRO DA MERENDA, LIBERDADE RAFAEL BRAGA, seria mais útil.

Em relação às medidas tomadas pelo atual prefeito de São Paulo, João Dória, em ‘limpar’ os muros para embelezar a cidade. Qual a sua opinião?

Jogada de marketing, até porque ele apagou pontos isolados e a cidade não mudou nada. Na verdade o Doria vive num mundo à parte. Nunca viveu a rua, a cidade. Pior que o Doria é uma pessoa na periferia que vota num playboy achando que ele vai olhar por ele. Esses dias no Datena (outro demagogo), ele entrevistava uma mulher alagada no Jardim Romano, ela então diz: Votei no Doria. O povo abraçou a jogada de marketing que fez do Doria um trabalhador, além do mais, ele disse que não era político, era gestor, bem na hora que geral estava de saco cheio de político. Triste ele ter ganho do Haddad, que apesar de algumas falhas, foi um ótimo prefeito. No primeiro turno, Haddad disse que a cidade precisava de mais bike e menos carro. A diferença, é claro, Haddad grafitava, Doria apaga grafite e deixa tudo cinza.

Que outras ações alternativas poderiam ser tomadas pela administração, para que o problema causado pelas pichações no cenário urbano fossem resolvidos? 

Ninguém vai acabar com a pichação. Ideal seria chamar eles pro debate, saber o que pensam, e pensar juntos soluções que atendam o interesse dos dois lados. Mas acho improvável no momento.

Você acha que um dia esse tipo de intervenção será aceita pela sociedade? Na sua opinião, quais são os prós e contras do grafite e da pichação?

O Grafite também já foi marginalizado e hoje é mais aceito. Acho que a sociedade nunca vai aceitar o pixo completamente, ninguém quer seu muro pixado, não vai passar a querer nunca, eu acho.

Você convive com o ambiente da periferia e sua cultura. A pichação e o grafite, fazem parte dessa cultura, tanto que o grafite é um dos elementos do Hip Hop. É possível traçar uma linha (limite) entre o que é vandalismo e o que é arte, ou manifestação dessa cultura?

Cara, amo grafite. Já cobri eventos, tenho amigos grafiteiros. O grafite é arte das ruas, da periferia. Tenho um primo pixador nato, pixa FOTS, Formação Organizada Tinta Spray. É maior que ele. Ele tenta ficar longe, mas uma hora ou outra tem uma recaída. Acho que o limite é o respeito. Na avenida 9 de julho, por exemplo, vários locais alugando, com frente de vidro, têm sua fachada toda pixada. Até os vidros. Isso não ajuda em nada a melhorar a imagem do pixador, mas eu não sei se ele está interessado em melhorar a sua imagem.

Por que você acha que as coisas da periferia (as pinturas, as músicas, a moda) têm mais dificuldade em se firmar no cenário artístico-social do que outros tipos de arte e manifestações?

Porque o povo instruído é mais perigoso. Então é melhor impedir o seu crescimento. Qualquer comédia descartável da Globo Filmes consegue apoio de diversas empresas. Vai você com um projeto de um filme independente pra ver. Ninguém te recebe. Querem nos calar.

Você acha que o pré-conceito em relação às manifestações da cultura da periferia, por parte da sociedade, está diretamente ligada à falta de amadurecimento dos cidadãos em geral?

O povo só tem tempo pra trabalhar. Não vai ao cinema, ao teatro, aos grandes shows, aos shows na quebrada. Quem vai é uma parte da sociedade, mas a maioria tem por artista o cara que vai no Faustão. Sucesso só depois de dar entrevista no Jô.

Há algo que você gostaria de acrescentar? Algum ponto de vista ou opinião, acerca da abordagem midiática em que esse assunto foi envolvido nos últimos dias?

Sim. Quanto ao Doria, tô aguardando cenas dos próximos capítulos, mas sou pessimista sobre os 4 anos que ele vai estar à frente da prefeitura. Não só na questão pixação e grafite, pra cultura em geral. No mesmo dia que os telejornais mostraram uma tela stencil do Bank Spin Crew sendo apagada como pixação, prenderam uns caras com uma tela HITLER VIVE, procura ai… Foi no mesmo telejornal. Acho que o Bom Dia SP. Não sabem nada.

Opinião

O propósito do Vá de Cultura é abrir espaço para ouvir as pessoas, e a entrevista acima foi publicada na íntegra. É importante que se compreenda, porém, que os pontos de vista representados nela, não expressam a opinião do site Vá de Cultura, tampouco de seus editores, apenas a do entrevistado. Da mesma forma, o Vá de Cultura está aberto a receber integralmente outras opiniões e outros pontos de vista.

E você leitor do Vá de Cultura, concorda com a opinião do Alessandro Buzo? Deixe um comentário com a sua opinião aqui no artigo, e vamos discutir juntos este assunto. Não se esqueça de curtir a página do Vá de Cultura no Facebook, e interagir com a gente usando a hashtag #vádecultura em suas redes sociais.

Alessandro Buzo fala sobre grafite e pixo e critica gestão de Doria


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