Salvator Mundi: A obra que o ‘marketing’ tornou a mais cara da história

0
395
Salvator Mundi
Salvator Mundi

Salvator Mundi, uma tela que retrata Cristo com uma esfera de cristal na mão se converteu na obra de arte mais cara já vendida na história. A Christie’s – Uma das empresas de arte mais importantes do mundo – leiloou por U$D 450 milhões (R$ 1.4 bilhão) em novembro de este ano. Porém, ainda existem muitas controvérsias e dúvidas por conhecer se foi realmente uma das 20 (sim, 20 só!) telas que Da Vinci pintou ao longo de sua vida.

Leia também: Museu de Arte de São Paulo, tem entrada gratuita às terças-feiras

Mais uma vez, a maravilhosa máquina de marketing consegue atrair a atenção dos meios de comunicação, compradores “anônimos”, perícias superficiais e negócios milionários.
O leiloeiro da Christie’s, Jussi Pylkkanen justificou a “indubitável” proveniência do trabalho afirmando que a obra estava “anteriormente nas coleções de três reis da Inglaterra”… Indubitável proveniência?

O autor Philip Hook, especialista internacional em arte impressionista e moderna da Sotheby’s, deu sua própria opinião sobre a questão da autenticidade do trabalho. Ele disse que é geralmente aceito que, em algum lugar do trabalho, existe uma grande parte da pintura que é de autoria de Leonardo, mas, ao longo do tempo, teve que ser restaurada, e agora uma porção considerável da obra está repintada por restauradores posteriores, e por isso não está em um estado absolutamente original, embora existam elementos suficientes para que obra seja vendida como Leonardo¨.

O trabalho supostamente foi avalizado por um especialista chamado Walter Isaacson, porém a questão é: a opinião de uma única pessoa é suficiente para uma pesquisa tão “importante?”, não deveria ser criado um comitê interdisciplinar para evitar especulações? Ou podemos pensar que já que a peça foi vendida não é relevante o tema da autoria?

Existem preocupações legítimas sobre a pintura. Em uma entrevista na ArtNews, a prestigiosa especialista em restauração Jennifer L. Mass Ph.D, presidente da Scientific Analysis of Fine Art, LLC, falou sobre as questões relacionadas com a condição de Salvator Mundi.

“Em geral, quando você examina por uma coleção, aproximadamente 80 por cento do que você vê é o trabalho dos artistas e 20 por cento é da mão dos restauradores e conservadores que trabalharam nas pinturas ao longo dos anos”. Comentou.

É Bom salientar que ela não analisou a obra em questão, e simplesmente explanou sobre questões gerais de conservação e restauro.

“Não é incomum que as pinturas tenham certo grau de tinta que não pertença ao trabalho original e que é simplesmente algo que você esperaria de uma obra de arte de várias centenas de anos”, disse.

Em seu ensaio publicado esta semana na Nova York Magazine, questionando a autenticidade do trabalho, o crítico de arte Jerry Saltz cita um “especialista bem conhecido da área” o qual manteve no anonimato, e que ironizou a razão pela qual essa pintura renascentista estava incluída em um leilão de arte contemporânea, já que “90% do trabalho foi pintado nos últimos 50 anos”.

A tela Salvator Mundi, embora disponha de resultados forenses que asseguram que não é uma falsificação moderna, ainda assim é uma questão de opinião se realmente foi executada por Leonardo. A obra foi pintada em tela, muito embora Leonardo e os discípulos de seu estúdio, sempre pintassem em painéis de madeira.

Por outro lado ele gostava de experimentar materiais e métodos, mas o uso da tela como suporte causa estranheza, como bem notou Martin Kemp, professor de história da arte na Universidade de Oxford e autor de “Leonardo da Vinci: vida e obra“. Se o motivo para atestar sua autenticidade for apenas porque se assemelha com outro desenho do artista renascentista, isso não torna a peça original de Leonardo da Vinci.

Novamente, uma grande campanha de marketing faz uma obra de arte atingir um preço obsceno, expondo um negócio milionário onde o status quo permanece intacto e onde o mercado de arte continua dando mais importância às histórias e à proveniência do que à peça de arte.

Gostou deste artigo? Deixe um comentário!